Estudo aponta riscos em restos mumificados vendidos online
Treze de 128 posts mostravam sinais visuais suspeitos de fungos. Sem testes físicos, o estudo não identificou microrganismos nem mediu o mercado.

Um estudo publicado em 5 de agosto no International Journal of Cultural Property examinou 128 posts ou lotes online com restos mumificados. Treze entradas mostravam o que os autores classificaram como possível colonização fúngica; oito delas anunciavam itens à venda. A equipe não teve acesso aos restos e não coletou amostras, portanto não confirmou fungos nem identificou qualquer microrganismo.¹ ²
O resultado abre uma questão de biosegurança que costuma desaparecer na fotografia de um anúncio. Restos preservados podem carregar substâncias usadas no embalsamamento ou em tratamentos posteriores. Armazenamento inadequado também pode favorecer atividade microbiana. O estudo encontrou sinais visuais e ausência de orientação de segurança, sem demonstrar que cada item era tóxico, infeccioso ou capaz de causar doença.¹ ²
A amostra documenta casos, não o tamanho do mercado
Os pesquisadores reuniram posts de plataformas Meta, sites de comércio eletrônico, lojas virtuais e casas de leilão. O recorte principal, de 2015 a 2025, foi formado de maneira oportunística a partir de monitoramento e buscas, sem uma varredura sistemática de todas as plataformas.¹ ²
Os painéis temporais da Figura 1 também incluem quatro entradas anteriores — uma de 2011, uma de 2013 e duas de 2014 — e um registro sem ano associado.²
Dos 128 registros, 122 continham restos humanos e seis apresentavam animais. O conjunto incluía anúncios de venda e publicações de colecionadores exibindo peças. Partes isoladas, como mãos e pés, foram a categoria mais frequente; mais da metade da amostra envolvia cabeças em diferentes estados de preservação ou completude.¹ ²
Esses números descrevem o material que a equipe localizou. Não há um denominador que permita calcular qual parcela do comércio online foi capturada, quantos itens foram efetivamente vendidos ou qual seria a prevalência de problemas no mercado. O próprio artigo diz que o volume é pequeno demais para estabelecer uma tendência estatística ao longo do tempo.²
Uma sequência com mais posts em determinado ano também pode refletir mudanças no monitoramento, na visibilidade de perfis ou no acesso a grupos públicos. Contas privadas e publicações removidas ficam fora do que os pesquisadores conseguiam observar. A amostra serve como coleção de ocorrências, não como censo.
Uma foto sinaliza deterioração sem identificar a causa
Os 13 casos suspeitos vieram de posts no Facebook. Os autores registraram pontos e crescimentos brancos, cinza, amarelos ou pretos, além de áreas compatíveis visualmente com biodeterioração. Oito dos 13 posts ofereciam os restos para venda.²
A análise parou na imagem. A equipe não fez swab, cultura, microscopia, sequenciamento genético ou teste químico. A qualidade das fotografias também impedia distinguir fungo, bactéria, levedura ou outra alteração do tecido e dos materiais associados.² “Sinal visual suspeito” é a conclusão que os dados sustentam.
O limite vale na direção oposta. Uma superfície sem mancha aparente não exclui esporos dormentes ou resíduos químicos invisíveis. Essa possibilidade vem de estudos anteriores e da experiência de conservação citados no artigo, não de testes nos 128 registros.¹ ²
Preservação histórica deixa riscos diferentes
A categoria “múmia” reúne corpos preservados por processos naturais e por práticas artificiais de épocas e lugares distintos. Algumas técnicas de embalsamamento dos séculos 19 e 20 empregaram elementos tóxicos. Arsênio, mercúrio e chumbo aparecem na revisão apresentada pelos autores. Coleções também receberam pesticidas ao longo do tempo para conter insetos.²
Essas substâncias podem persistir, mas o estudo online não analisou metais, pesticidas ou preservativos em nenhum item. Proveniência incompleta e histórico de conservação ausente tornam o risco difícil de estimar a partir de um anúncio. A existência de um perigo conhecido não comprova exposição em um corpo específico.
O risco biológico segue outra rota. Bactérias, fungos e leveduras podem permanecer em tecido desidratado ou recolonizá-lo quando umidade, temperatura e ventilação favorecem crescimento. Mover um material com esporos pode colocá-los no ar.² O artigo reúne essa literatura para explicar por que profissionais controlam o ambiente e avaliam cada peça antes do manuseio.
Os pesquisadores não mediram exposição de compradores, vendedores ou trabalhadores de entrega. Também não acompanharam sintomas, internações ou mortes relacionados aos posts. Relatos históricos sobre doenças após a abertura de tumbas não transformam esta análise visual em estudo clínico.
A informação de segurança não acompanhava os anúncios
Segundo os autores, os posts de venda não traziam regularmente instruções para guardar ou manipular restos preservados. Algumas imagens mostravam contato direto sem as proteções usadas por equipes de museus e laboratórios.¹ ² ³ Essa diferença importa porque uma coleção institucional costuma registrar proveniência, tratamentos anteriores e condições ambientais, informações que um anúncio pode omitir.
O artigo também identificou restos enviados dentro de um país e para o exterior. Um pacote documentado entrou em conflito com a política da transportadora citada pelos pesquisadores.² O alcance legal dessa observação é limitado: regras sobre comércio, posse e transporte de restos humanos variam por jurisdição, e o estudo não conclui que todas as transações registradas eram ilegais.
O possível risco não termina no comprador. Uma embalagem sem identificação adequada pode passar por transportadoras, armazéns e inspeções sem que os trabalhadores saibam que há tecido humano ou animal preservado no interior. A equipe pede orientações postais mais claras e fiscalização consistente, sem oferecer uma regra global única.¹ ³
Fontes
- The real mummy’s curse: Health risks associated with the sale and trade of mummified remains · International Journal of Cultural Property · https://doi.org/10.1017/S0940739126100393 · 5 ago. 2026
- The real mummy’s curse: Health risks associated with the sale and trade of mummified remains · Cambridge University Press · https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/FCE6E950ED8A6BEF310766AF1CF53DB4/S0940739126100393a.pdf/real_mummys_curse_health_risks_associated_with_the_sale_and_trade_of_mummified_remains.pdf · 2026
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- ‘Real mummy’s curse’ behind sale and trade of mummified remains exposed · University of Staffordshire · https://www.staffs.ac.uk/news/2026/real-mummys-curse-behind-sale-and-trade-of-mummified-remains-exposed · 12 ago. 2026