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Como grandes erupções mudaram colheitas, clima e sociedades

Samalas, Laki e Tambora alteraram a atmosfera. Estação, circulação, reservas de comida e instituições decidiram quanto a perturbação chegou às pessoas.

Por Redação·8 set 2026·Culture
pluma cinza sobe do Monte Pagan sobre uma paisagem coberta por cinzas
Imagem ilustrativa da erupção do Monte Pagan, nas Ilhas Marianas do Norte, em 1994. A foto não mostra Samalas, Laki ou Tambora. Frank Trusdell / USGS

Uma revisão publicada em 2024 voltou aos registros paroquiais, relatos de fome e estimativas de poluição deixados pela erupção de Laki, na Islândia, em 1783–1784. A distribuição das mortes se ajustou melhor à falta de comida e às doenças do que a uma causa tóxica direta. Pesca, reservas domésticas, clima anterior e a chegada tardia de ajuda explicaram por que distritos submetidos ao mesmo desastre tiveram resultados diferentes.⁶

Grandes erupções históricas seguem essa cadeia. O vulcão produz uma perturbação física mensurável; a estação do ano e a circulação atmosférica distribuem seus efeitos. Colheitas convertem temperatura e chuva em alimento. Mercados, instituições e crises em andamento definem quem consegue atravessar a escassez.

Samalas, em 1257, Laki, a partir de junho de 1783, e Tambora, em 1815, percorreram trechos diferentes dessa cadeia. Os três casos mostram por que uma assinatura de enxofre no gelo ou uma anomalia de temperatura não basta para explicar fome, mortalidade ou mudança política.

O enxofre liga o vulcão ao clima

O agente climático de uma grande erupção explosiva costuma ser o dióxido de enxofre que alcança a estratosfera. Ali, o gás participa da formação de gotículas de ácido sulfúrico. Esses aerossóis refletem parte da radiação solar e podem resfriar a superfície durante um a três anos. A cinza visível cai em dias ou semanas e tem alcance climático global bem menor.¹

A resposta varia mesmo quando a injeção de enxofre é enorme. Latitude do vulcão, altura da pluma, mês da erupção e ventos estratosféricos controlam a dispersão. Oceanos e padrões de circulação redistribuem o sinal. Uma média hemisférica mais fria pode coexistir com uma região mais quente ou com um inverno cuja dinâmica foge da expectativa simples de resfriamento uniforme.

O passo seguinte depende do calendário agrícola. Frio durante a dormência de uma cultura tem efeito diferente de geada na floração. Chuva pode salvar uma lavoura seca ou impedir a colheita. A perda vira alta de preço onde os estoques são pequenos, o transporte é ruim ou o comércio não repõe a oferta.

Samalas agravou fomes que já haviam começado

Pesquisadores identificaram em 2013 o vulcão Samalas, no complexo de Rinjani, na ilha indonésia de Lombok, como a fonte da grande camada de sulfato de 1257. A combinação de depósitos, datação e uma crônica local ligou a caldeira ao evento que aparecia havia décadas em testemunhos de gelo.⁵ Trabalhos posteriores classificaram a erupção entre as maiores liberações estratosféricas de gases da Era Comum.⁴

Anéis de árvores, gelo e documentos históricos indicam que os verões de 1258 e 1259 estiveram entre os mais frios do Hemisfério Norte no último milênio. O mapa foi irregular: Europa Ocidental, Sibéria e Japão esfriaram com força, enquanto Alasca e norte do Canadá tiveram condições acima da média. Os autores associam parte dessa diferença à circulação do Pacífico.³

Crônicas registram fomes severas na Inglaterra e no Japão. A cronologia impede tratar Samalas como ponto de partida: as duas crises alimentares começaram antes da erupção. O estudo conclui que o choque climático agravou problemas existentes.³ Na Inglaterra, safras ruins e conflito político já comprimiam o abastecimento. No Japão, a fome Shōga também antecedeu o resfriamento mais nítido. A erupção acrescentou temporadas adversas a sociedades que já consumiam suas margens de segurança.

Laki combinou gases, perda de gado e falta de comida

Laki foi uma erupção fissural prolongada, de 8 de junho de 1783 a 7 de fevereiro de 1784. Gases, chuva ácida e cinzas ricas em flúor atingiram pastagens e mataram grande parte do gado islandês. Esse elo com a fome é bem documentado. A população caiu quase 20% até 1786 por excesso de mortes e redução dos nascimentos.⁶

A causa imediata de cada morte continua mais difícil de separar. Estudos já atribuíram mortalidade na Islândia e na Europa à névoa de enxofre. Reconstruções atmosféricas também permitem modelar a exposição histórica a partículas finas e estimar uma carga potencial de mortes.⁷ Esses cálculos dependem do campo meteorológico reconstruído e de relações modernas entre exposição e risco; não são uma contagem observada em 1783.

A revisão de 2024 comparou a poluição estimada com o momento e o lugar das mortes islandesas. O encaixe foi fraco. Fome e doenças explicaram melhor a variação quando os pesquisadores incluíram acesso à pesca, reservas de alimento, ajuda dinamarquesa e condições anteriores à erupção. O nordeste já vinha de invernos duros e perda de animais. Regiões costeiras com pesca e estoques atravessaram o primeiro inverno melhor; algumas sofreram mais tarde, depois de uma colheita de feno prejudicada e do esgotamento das reservas.⁶

A poluição de Laki existiu e representou risco. Os registros disponíveis não demonstram que ela tenha sido a grande causa direta da mortalidade islandesa. A erupção pode ter alterado probabilidades de seca, calor ou frio em regiões distantes, mas a atribuição de um episódio específico permanece probabilística.⁶

Tambora encontrou uma década que já estava fria

Tambora entrou em erupção violentamente na ilha de Sumbawa em abril de 1815. O Smithsonian cataloga o episódio como VEI 7, o nível associado a uma erupção colossal, e registra a explosão formadora de caldeira em 10 de abril.² Aerossóis estratosféricos reduziram a radiação incidente nos anos seguintes. Uma revisão do sistema terrestre estima resfriamento anual de cerca de 0,4 a 0,8 °C nos trópicos e no Hemisfério Norte extratropical, em comparação com os 30 anos anteriores.⁸

O “ano sem verão” de 1816 reuniu frio e precipitação anormais em partes do Hemisfério Norte. Nas Terras Tchecas, séries instrumentais e documentos mostram verão extremamente úmido em 1815, verão extremamente frio em 1816, colheitas ruins e aumentos disseminados do preço de grãos em 1817.⁹ A sequência torna visível a passagem do aerossol para a mesa, mas permanece regional. Outros lugares tiveram estações, culturas e redes de abastecimento diferentes.

Tambora também não chegou a um clima neutro. Uma erupção ainda não identificada em 1808 ou 1809 já havia lançado sulfato na estratosfera. A atividade solar reduzida do Mínimo de Dalton pode ter contribuído para a tendência fria do começo da década de 1810. Modelos respondem de formas distintas conforme as condições oceânicas e atmosféricas iniciais.⁸ A erupção de 1815 foi o maior impulso conhecido nessa sequência, sem responder sozinha por tudo o que ocorreu entre 1810 e 1819.

O que a comunidade científica ainda discute

Quatro temas mantêm a atribuição aberta. A dose estratosférica procura estimar quanto enxofre virou aerossol e por quanto tempo permaneceu. A circulação regional tenta explicar por que o mesmo forçamento produziu frio intenso em uma área e resposta pequena em outra.³ ⁴ ⁸

A causa da mortalidade exige separar exposição a gases e partículas de fome e doença, tarefa especialmente difícil quando os registros têm mais de dois séculos.⁶ ⁷ A capacidade de resposta acompanha reservas, pesca, comércio e ajuda pública, fatores que mudaram o resultado dentro da própria Islândia e entre regiões afetadas por Tambora.⁶ ⁹

Fontes

  1. Volcanoes Can Affect Climate · U.S. Geological Survey · https://www.usgs.gov/programs/VHP/volcanoes-can-affect-climate
  2. Tambora · Smithsonian Global Volcanism Program · https://volcano.si.edu/volcano.cfm?vn=264040
Mostrar mais 7 fontesOcultar fontes
  1. Climate response to the Samalas volcanic eruption in 1257 revealed by proxy records · Nature Geoscience · https://www.nature.com/articles/ngeo2875 · 2017
  2. The 1257 Samalas eruption: the single greatest stratospheric gas release of the Common Era · Scientific Reports · https://www.nature.com/articles/srep34868 · 2016
  3. Source of the great A.D. 1257 mystery eruption unveiled, Samalas volcano, Rinjani Volcanic Complex, Indonesia · PNAS · https://doi.org/10.1073/pnas.1307520110 · 2013
  4. “More poison than words can describe”: what did people die of after the 1783 Laki eruption in Iceland? · Natural Hazards and Earth System Sciences · https://nhess.copernicus.org/articles/24/2971/2024/ · 2024
  5. Mortality induced by PM2.5 exposure following the 1783 Laki eruption using reconstructed meteorological fields · Scientific Reports / PMC · https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6203706/ · 2018
  6. Tambora 1815 as a test case for high impact volcanic eruptions: Earth system effects · WIREs Climate Change · https://climate.envsci.rutgers.edu/pdf/RaibleTambora_wcc407.pdf · 2016
  7. Climatic effects and impacts of the 1815 eruption of Mount Tambora in the Czech Lands · Climate of the Past · https://cp.copernicus.org/articles/12/1361/2016/ · 2016

— Redação

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