A usina nuclear morta que quer renascer como fusão
O governo alemão escolheu o terreno da usina nuclear de Biblis, desligada em 2011, para o hub nacional de fusão a laser. A Focused Energy chama o projeto de primeira usina comercial do mundo, mas seu roteiro só prevê o primeiro megawatt-hora na rede em 2037. Entre a ignição de laboratório e esse marco há uma lista de problemas ainda sem solução.

Em 29 de julho, o Ministério Federal de Pesquisa, Tecnologia e Espaço da Alemanha anunciou onde ficarão os três hubs nacionais de fusão. O de fusão magnética vai para o Instituto Max Planck de Física de Plasmas, na Baviera. O de materiais e ciclo de combustível, para o KIT, em Karlsruhe. O de fusão a laser foi para Biblis, no sul de Hessen, o terreno de uma usina nuclear que perdeu a licença de operar em 6 de agosto de 2011 e está sendo desmontada desde 2017.¹ ⁸
Onde a Alemanha enterrou a fissão, agora aposta na fusão. A escolha, porém, não veio do gosto pela ironia, mas do concreto armado, da conexão à rede elétrica e da água do Reno.
É nesse terreno que a Focused Energy, spin-off da TU Darmstadt fundada em 2021, diz que construirá a primeira usina comercial de fusão a laser do mundo em meados da década de 2030.² ⁴ O roteiro da própria empresa, porém, prevê uma usina-piloto em 2035 e o primeiro megawatt-hora na rede em 2037.⁵ A frase junta duas coisas de natureza muito diferente: um terreno que existe e uma usina que não existe em lugar nenhum.
O que Biblis foi
Dois reatores de água pressurizada: o bloco A entrou em operação em 1974, o bloco B em 1976, somando 2.525 megawatts elétricos brutos.⁸ Os dois saíram da rede em março de 2011, depois de Fukushima, e perderam a autorização para gerar eletricidade com a 13ª emenda à lei atômica alemã, em agosto do mesmo ano.⁸
O desmonte só começou para valer em 30 de março de 2017, quando saíram as licenças de descomissionamento e desmontagem.⁸ Só da área controlada devem sair cerca de 340 mil toneladas de material, das quais aproximadamente 5.800 toneladas terminam como rejeito radioativo para depósito definitivo.⁸ A terceira das quatro torres de resfriamento caiu em dezembro de 2025; a última, em 16 de janeiro de 2026.²³ O fim do desmonte está previsto para 2032.¹⁸
Uma parte do sítio, no entanto, não vai a lugar nenhum. O depósito intermediário de Biblis guarda 102 contêineres do tipo CASTOR V/19 com combustível irradiado e, desde novembro de 2020, seis CASTOR HAW28M com rejeito vitrificado do reprocessamento no exterior.⁹ A licença de armazenamento vale até 2046.⁹ O campus de fusão vai nascer com esse vizinho.
Por que um terreno de usina morta é um bom terreno
A lista de vantagens é bem mais prosaica do que a tecnologia.
Existe casa de máquinas, existem galpões e duas estruturas de contenção em concreto armado espesso. Existe conexão de alta tensão dimensionada para os dois reatores que funcionavam ali, água de refrigeração, zoneamento industrial e gente treinada para trabalhar numa instalação nuclear. Um estudo de viabilidade conduzido pela Arthur D. Little com a Focused Energy propõe justamente não devolver o terreno ao estado de campo aberto: manter as casas de máquinas e as estruturas de contenção e usá-las para laboratórios de laser, fabricação de alvos e bancadas de teste.⁷
O dono do terreno tem interesse direto no desfecho. A RWE investiu na Focused Energy em outubro de 2025 e colocou mais 60 milhões de euros na rodada Série A de maio de 2026, dizendo que, se o sítio fosse escolhido como hub, aceleraria o processo de descomissionamento para adaptar a infraestrutura nuclear existente ao uso de fusão o quanto antes.³
O plano físico tem duas etapas: uma instalação de teste em um dos blocos, onde os componentes serão integrados e ajustados, inclusive o conjunto de 1.152 lasers individuais, e depois o reator de maior porte no outro bloco.¹⁸
O que é fusão inercial, em um parágrafo
Há dois caminhos principais para fundir hidrogênio na Terra. O magnético segura um plasma diluído com ímãs por segundos ou minutos; é o caminho do ITER e do Wendelstein 7-X. A fusão inercial faz o oposto: pega uma cápsula milimétrica de deutério e trítio e a esmaga com laser em bilionésimos de segundo, até que o centro esquente o bastante para acender e a queima se propague pelo combustível comprimido.
O NIF, na Califórnia, faz isso pelo caminho indireto: seus 192 feixes entram num hohlraum, que converte a luz em raios X, e são esses raios X que comprimem a cápsula.¹¹ A Focused Energy escolheu o caminho direto, com o laser batendo na cápsula sem intermediário. O artigo de 2023 em que a empresa apresentou sua abordagem descreve especificamente ignição rápida por prótons, um esquema que separa a compressão do aquecimento para alcançar os ganhos altos, acima de 100, que a própria empresa aponta como necessários para fusão comercial.⁶ Nos materiais públicos de 2026 e numa entrevista do CEO em fevereiro, a descrição mudou para direct drive com ignição por ponto quente central.⁵ ⁷ Mudar de rota é normal em engenharia de fronteira, mas a abordagem anunciada em 2026 já não é a mesma publicada em 2023.
O que já foi provado
Em 5 de dezembro de 2022, o NIF entregou 2,05 megajoules de laser a um alvo e colheu 3,15 megajoules de energia de fusão.¹¹ Foi a primeira vez que uma cápsula devolveu mais do que recebeu. O recorde veio em 7 de abril de 2025: 2,08 megajoules entregues, 8,6 megajoules liberados, ganho do alvo de 4,13.¹² Até 20 de junho de 2026, foram onze disparos com ignição.¹¹
Nenhum desses números está inflado, e a Focused Energy está correta ao dizer que a fusão a laser é a única rota que demonstrou ganho do alvo acima de 1.⁴ O detalhe está no que a palavra "ganho" contabiliza.
Ganho do alvo compara energia de fusão com energia de laser na cápsula. Não compara nada com a tomada. Os bancos de capacitores do NIF armazenam cerca de 400 megajoules para entregar uns 2 megajoules ao alvo, o que dá 0,5% de wall-plug efficiency.¹³ Ou seja: o melhor disparo da história liberou 8,6 megajoules numa instalação que puxou algo como 400 megajoules da rede. John Holdren, que dirigiu o escritório de ciência da Casa Branca, faz a conta de forma otimista: convertidos em eletricidade, aqueles 8,6 megajoules virariam uns 5, cerca de um octogésimo da eletricidade consumida no disparo.¹⁴
As quatro contas que ninguém fechou
Cadência. O NIF, com equipe grande e dedicada, chega a dois disparos por dia em condições favoráveis. Uma usina precisaria de algo como dez por segundo.¹⁴ Thomas Forner, CEO da Focused Energy, não esconde a implicação: cerca de um milhão de cápsulas por dia, produzidas, nas palavras dele, como se produzem carros.⁷
Custo do alvo. Hoje uma cápsula de fusão sai por volta de 10 mil dólares. Para uma usina fechar a conta, ela precisa custar centavos.¹⁴ São seis ordens de grandeza. Não depende de física nova, e sim de manufatura em escala, o que não torna o problema fácil, só o torna de outro tipo.
Eficiência do laser. Os 0,5% do NIF vêm de lâmpadas de flash bombeando vidro dopado com neodímio, tecnologia dos anos 1990 projetada para disparar pouco e forte, não muito e sempre. Um driver de usina precisa ser outra máquina. Em dezembro de 2024 a Focused Energy fechou um acordo de 40 milhões de dólares com a francesa Amplitude, financiado pela agência alemã de inovação SPRIND, para dois lasers de classe quilojoule projetados para disparar uma vez a cada 60 segundos.²¹ Isso é muito acima dos dois disparos por dia do NIF e ainda 600 vezes abaixo dos dez por segundo que uma usina precisaria. A conta é implacável: se o laser aproveita 0,5% da tomada, nenhum ganho de alvo plausível fecha o balanço da usina. Os dois números precisam melhorar juntos.
Trítio. O deutério vem da água do mar e é barato. O trítio não existe em quantidade na natureza, decai com meia-vida de 12,3 anos e o estoque civil mundial é de 25 a 30 quilos. O Canadá produz cerca de 2 quilos por ano como subproduto de reatores CANDU, a maior parte já comprometida com o ITER, e as reservas encolhem uns 5% ao ano só por decaimento. Uma usina de 1 gigawatt pode consumir mais de 55 quilos por ano.²⁰ A saída é o manto de trítio, uma camada de lítio ao redor da câmara que transforma nêutrons em combustível novo. A física é conhecida; a demonstração em escala industrial, não.
Dois calendários públicos
O roteiro público da Focused Energy é específico: primeiro laser em Biblis em 2028, primeira luz na câmara de diagnóstico em 2031, implosão em 2033, usina-piloto em 2035 e o primeiro megawatt-hora na rede em 2037.⁵ Na entrevista de fevereiro de 2026, Forner situa o nível 6 de maturidade tecnológica por volta de 2030 e o protótipo em 2035 ou 2036.⁷
No mesmo dia do anúncio do hub, a cobertura da emissora pública hessenschau registrou a meta federal de ter a primeira usina de fusão da Alemanha em operação na década de 2040.¹⁷ São dois calendários públicos com quase uma década de diferença, divulgados na mesma semana.
O dinheiro também tem duas escalas. O ministério federal aporta cerca de 125 milhões de euros na primeira rodada dos três hubs, com o programa se ampliando em seis fases até 2029;¹ o Plano de Ação Fusão, de outubro de 2025, prevê mais de 2 bilhões de euros no mesmo horizonte.¹⁰ Hessen entrou com 20 milhões para 2025 no memorando assinado em março daquele ano.¹⁹ A Focused Energy levantou 240 milhões de dólares na Série A e anunciou, junto com o hub, 200 milhões de euros de investimento privado em dois anos e cerca de 500 milhões até 2030.² ⁴ O conselho científico do clima de Hessen, por sua vez, trabalha com um custo de pelo menos 20 bilhões de euros por reator.¹⁵
A mudança de regra que quase ninguém comentou
O Plano de Ação Fusão, publicado em 1º de outubro de 2025, propôs manter as instalações de fusão sob a lei de proteção radiológica alemã, e não sob a lei atômica; o processo legislativo para consolidar esse enquadramento deve se encerrar em 2026.¹⁰
Isso importa mais do que parece. Um regime específico pode reduzir tempo e custo de licenciamento, sobretudo num terreno que já tem infraestrutura nuclear e uma operadora habituada a aprovações regulatórias.³ Segundo Forner, a Agência Internacional de Energia Atômica classificou Biblis como projeto de referência.⁷
Regime mais leve, porém, não quer dizer ausência de regime, e a objeção técnica mais concreta dos críticos mora exatamente aí: o inventário de trítio.
Quem discorda, e com que argumento
O conselho científico do clima do governo de Hessen publicou em 28 de novembro de 2024 um parecer baseado em estudo que encomendou ao Öko-Institut. A conclusão é direta: a fusão não deve contribuir de forma perceptível para as metas climáticas do estado, que pretende atingir a neutralidade climática em 2045, porque um primeiro reator dificilmente sairia antes de 2043 e custaria pelo menos 20 bilhões de euros.¹⁵ O parecer levanta ainda o inventário de trítio de um reator como reservatório de difícil controle para produção de bombas de hidrogênio.¹⁵ Sven Linow, que preside o conselho, resume: "Hoje, ainda é muito incerto se reatores de fusão nuclear poderão ser tecnicamente viáveis e economicamente competitivos."¹⁵
A BUND de Hessen, organização ambiental, foi mais curta. Werner Neumann, especialista em energia da entidade, chamou a fusão de "um sonho irrealista, caro e radioativo".¹⁶
Holdren, no Belfer Center de Harvard, escreveu em abril de 2026 que apostaria em não ver um reator comercial de fusão bem-sucedido antes de 2050.¹⁴ E a revista alemã t3n publicou em julho uma crítica ao desenho do programa federal, apontando de passagem que a ex-ministra federal de pesquisa Bettina Stark-Watzinger hoje trabalha para a Focused Energy.²²
Em Biblis, a leitura é outra. O município perdeu com a usina seu maior empregador e sua maior fonte de receita, e o prefeito Konstantin Großmann vê no hub a chance de a cidade se firmar como polo de tecnologia e pesquisa.¹⁷ Steffen Kanitz, da diretoria da RWE, apresenta o projeto como perspectiva de emprego para o pessoal que ainda está no sítio.¹⁸
Veredito
A parte imobiliária dessa história é sólida. Reaproveitar uma instalação nuclear em desmonte, com rede, água, estruturas reforçadas e infraestrutura existente, em vez de devolver o terreno ao estado de campo aberto, é engenharia sensata e economia melhor ainda. Se a Alemanha vai gastar 2 bilhões de euros tentando industrializar fusão, Biblis é um lugar razoável para gastar.
A parte energética é uma aposta, e convém chamá-la assim. O que foi demonstrado é que uma cápsula pode devolver quatro vezes a luz que recebeu, numa instalação que consome cerca de oitenta vezes a eletricidade que esse disparo poderia devolver à rede. O que falta é cadência de dez disparos por segundo, alvo de centavos, laser de outra geração e um ciclo de trítio que se sustente sozinho. Nenhum desses quatro problemas foi resolvido, e três deles são de manufatura e engenharia de sistemas, não de física. Isso é uma boa notícia sobre a natureza do problema e nenhuma notícia sobre o prazo.
A pressa tem explicação. Num mercado em que datacenter de IA compra eletricidade que não dorme, energia firme passou a ser disputada, e é esse apetite que faz um projeto de 2037 parecer curto prazo para um investidor.
A frase que a Focused Energy estampa no próprio site é "a ciência está resolvida; estamos construindo a usina".⁵ A primeira metade é defensável, com a contabilidade certa. A segunda metade é o trabalho todo.
Fontes
- Bär: „Drei neue Fusionshubs vernetzen Wirtschaft und Wissenschaft auf dem Weg zum Fusionskraftwerk." (comunicado 39/2026: três hubs, cerca de 125 milhões de euros na primeira rodada, seis fases até 2029) · BMFTR · https://www.bmftr.bund.de/SharedDocs/Pressemitteilungen/DE/2026/07/Fusion.html · 29/07/2026.
- Biblis wird zum Laserfusions-Hub · Focused Energy · https://www.focused-energy.co/news-release/biblis-wird-zum-laserfusions-hub · acessado 17/08/2026.
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- RWE increases investment in Focused Energy (60 milhões de euros adicionais; compromisso de adaptar o descomissionamento) · RWE · https://www.rwe.com/en/press/rwe-ag/2026-05-27-rwe-increases-investment-in-focused-energy/ · 27/05/2026.
- Focused Energy Sets a New Benchmark: $240 Million for the Largest Series A Financing in the Global Fusion Industry · Focused Energy · https://www.focused-energy.co/news-release/focused-energy-sets-a-new-benchmark-240-million-for-the-largest-series-a-financing-in-the-global-fusion-industry · 27/05/2026.
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- Stieler, W. Kernfusion in Deutschland: Darum beruht der Plan auf fragwürdigen Annahmen · t3n · https://t3n.de/news/fusionskraftwerk-bis-2039-warum-deutschlands-24-milliarden-plan-scheitern-wird-1751607/ · 07/07/2026.
- Der letzte Biblis-Turm ist gefallen: Abriss mit fadem Beigeschmack (queda da quarta e última torre em 16/01/2026) · hessenschau · https://www.hessenschau.de/panorama/der-letzte-biblis-turm-ist-gefallen---abriss-mit-fadem-beigeschmack-v1%2Ckuehlturm-biblis-beigeschmack-100.html · 16/01/2026.