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A usina nuclear morta que quer renascer como fusão

O governo alemão escolheu o terreno da usina nuclear de Biblis, desligada em 2011, para o hub nacional de fusão a laser. A Focused Energy chama o projeto de primeira usina comercial do mundo, mas seu roteiro só prevê o primeiro megawatt-hora na rede em 2037. Entre a ignição de laboratório e esse marco há uma lista de problemas ainda sem solução.

Por Redação·25 ago 2026·Science
torres de resfriamento de uma usina de energia às margens de um rio na Alemanha
Foto ilustrativa: torres de resfriamento de uma usina de energia às margens de um rio na Alemanha, usadas aqui para representar a paisagem industrial que Biblis deixa para trás. A foto não é de Biblis. Hansjörg Keller / Unsplash

Em 29 de julho, o Ministério Federal de Pesquisa, Tecnologia e Espaço da Alemanha anunciou onde ficarão os três hubs nacionais de fusão. O de fusão magnética vai para o Instituto Max Planck de Física de Plasmas, na Baviera. O de materiais e ciclo de combustível, para o KIT, em Karlsruhe. O de fusão a laser foi para Biblis, no sul de Hessen, o terreno de uma usina nuclear que perdeu a licença de operar em 6 de agosto de 2011 e está sendo desmontada desde 2017.¹ ⁸

Onde a Alemanha enterrou a fissão, agora aposta na fusão. A escolha, porém, não veio do gosto pela ironia, mas do concreto armado, da conexão à rede elétrica e da água do Reno.

É nesse terreno que a Focused Energy, spin-off da TU Darmstadt fundada em 2021, diz que construirá a primeira usina comercial de fusão a laser do mundo em meados da década de 2030.² ⁴ O roteiro da própria empresa, porém, prevê uma usina-piloto em 2035 e o primeiro megawatt-hora na rede em 2037.⁵ A frase junta duas coisas de natureza muito diferente: um terreno que existe e uma usina que não existe em lugar nenhum.

O que Biblis foi

Dois reatores de água pressurizada: o bloco A entrou em operação em 1974, o bloco B em 1976, somando 2.525 megawatts elétricos brutos.⁸ Os dois saíram da rede em março de 2011, depois de Fukushima, e perderam a autorização para gerar eletricidade com a 13ª emenda à lei atômica alemã, em agosto do mesmo ano.⁸

O desmonte só começou para valer em 30 de março de 2017, quando saíram as licenças de descomissionamento e desmontagem.⁸ Só da área controlada devem sair cerca de 340 mil toneladas de material, das quais aproximadamente 5.800 toneladas terminam como rejeito radioativo para depósito definitivo.⁸ A terceira das quatro torres de resfriamento caiu em dezembro de 2025; a última, em 16 de janeiro de 2026.²³ O fim do desmonte está previsto para 2032.¹⁸

Uma parte do sítio, no entanto, não vai a lugar nenhum. O depósito intermediário de Biblis guarda 102 contêineres do tipo CASTOR V/19 com combustível irradiado e, desde novembro de 2020, seis CASTOR HAW28M com rejeito vitrificado do reprocessamento no exterior.⁹ A licença de armazenamento vale até 2046.⁹ O campus de fusão vai nascer com esse vizinho.

Por que um terreno de usina morta é um bom terreno

A lista de vantagens é bem mais prosaica do que a tecnologia.

Existe casa de máquinas, existem galpões e duas estruturas de contenção em concreto armado espesso. Existe conexão de alta tensão dimensionada para os dois reatores que funcionavam ali, água de refrigeração, zoneamento industrial e gente treinada para trabalhar numa instalação nuclear. Um estudo de viabilidade conduzido pela Arthur D. Little com a Focused Energy propõe justamente não devolver o terreno ao estado de campo aberto: manter as casas de máquinas e as estruturas de contenção e usá-las para laboratórios de laser, fabricação de alvos e bancadas de teste.⁷

O dono do terreno tem interesse direto no desfecho. A RWE investiu na Focused Energy em outubro de 2025 e colocou mais 60 milhões de euros na rodada Série A de maio de 2026, dizendo que, se o sítio fosse escolhido como hub, aceleraria o processo de descomissionamento para adaptar a infraestrutura nuclear existente ao uso de fusão o quanto antes.³

O plano físico tem duas etapas: uma instalação de teste em um dos blocos, onde os componentes serão integrados e ajustados, inclusive o conjunto de 1.152 lasers individuais, e depois o reator de maior porte no outro bloco.¹⁸

O que é fusão inercial, em um parágrafo

Há dois caminhos principais para fundir hidrogênio na Terra. O magnético segura um plasma diluído com ímãs por segundos ou minutos; é o caminho do ITER e do Wendelstein 7-X. A fusão inercial faz o oposto: pega uma cápsula milimétrica de deutério e trítio e a esmaga com laser em bilionésimos de segundo, até que o centro esquente o bastante para acender e a queima se propague pelo combustível comprimido.

O NIF, na Califórnia, faz isso pelo caminho indireto: seus 192 feixes entram num hohlraum, que converte a luz em raios X, e são esses raios X que comprimem a cápsula.¹¹ A Focused Energy escolheu o caminho direto, com o laser batendo na cápsula sem intermediário. O artigo de 2023 em que a empresa apresentou sua abordagem descreve especificamente ignição rápida por prótons, um esquema que separa a compressão do aquecimento para alcançar os ganhos altos, acima de 100, que a própria empresa aponta como necessários para fusão comercial.⁶ Nos materiais públicos de 2026 e numa entrevista do CEO em fevereiro, a descrição mudou para direct drive com ignição por ponto quente central.⁵ ⁷ Mudar de rota é normal em engenharia de fronteira, mas a abordagem anunciada em 2026 já não é a mesma publicada em 2023.

O que já foi provado

Em 5 de dezembro de 2022, o NIF entregou 2,05 megajoules de laser a um alvo e colheu 3,15 megajoules de energia de fusão.¹¹ Foi a primeira vez que uma cápsula devolveu mais do que recebeu. O recorde veio em 7 de abril de 2025: 2,08 megajoules entregues, 8,6 megajoules liberados, ganho do alvo de 4,13.¹² Até 20 de junho de 2026, foram onze disparos com ignição.¹¹

Nenhum desses números está inflado, e a Focused Energy está correta ao dizer que a fusão a laser é a única rota que demonstrou ganho do alvo acima de 1.⁴ O detalhe está no que a palavra "ganho" contabiliza.

Ganho do alvo compara energia de fusão com energia de laser na cápsula. Não compara nada com a tomada. Os bancos de capacitores do NIF armazenam cerca de 400 megajoules para entregar uns 2 megajoules ao alvo, o que dá 0,5% de wall-plug efficiency.¹³ Ou seja: o melhor disparo da história liberou 8,6 megajoules numa instalação que puxou algo como 400 megajoules da rede. John Holdren, que dirigiu o escritório de ciência da Casa Branca, faz a conta de forma otimista: convertidos em eletricidade, aqueles 8,6 megajoules virariam uns 5, cerca de um octogésimo da eletricidade consumida no disparo.¹⁴

As quatro contas que ninguém fechou

Cadência. O NIF, com equipe grande e dedicada, chega a dois disparos por dia em condições favoráveis. Uma usina precisaria de algo como dez por segundo.¹⁴ Thomas Forner, CEO da Focused Energy, não esconde a implicação: cerca de um milhão de cápsulas por dia, produzidas, nas palavras dele, como se produzem carros.⁷

Custo do alvo. Hoje uma cápsula de fusão sai por volta de 10 mil dólares. Para uma usina fechar a conta, ela precisa custar centavos.¹⁴ São seis ordens de grandeza. Não depende de física nova, e sim de manufatura em escala, o que não torna o problema fácil, só o torna de outro tipo.

Eficiência do laser. Os 0,5% do NIF vêm de lâmpadas de flash bombeando vidro dopado com neodímio, tecnologia dos anos 1990 projetada para disparar pouco e forte, não muito e sempre. Um driver de usina precisa ser outra máquina. Em dezembro de 2024 a Focused Energy fechou um acordo de 40 milhões de dólares com a francesa Amplitude, financiado pela agência alemã de inovação SPRIND, para dois lasers de classe quilojoule projetados para disparar uma vez a cada 60 segundos.²¹ Isso é muito acima dos dois disparos por dia do NIF e ainda 600 vezes abaixo dos dez por segundo que uma usina precisaria. A conta é implacável: se o laser aproveita 0,5% da tomada, nenhum ganho de alvo plausível fecha o balanço da usina. Os dois números precisam melhorar juntos.

Trítio. O deutério vem da água do mar e é barato. O trítio não existe em quantidade na natureza, decai com meia-vida de 12,3 anos e o estoque civil mundial é de 25 a 30 quilos. O Canadá produz cerca de 2 quilos por ano como subproduto de reatores CANDU, a maior parte já comprometida com o ITER, e as reservas encolhem uns 5% ao ano só por decaimento. Uma usina de 1 gigawatt pode consumir mais de 55 quilos por ano.²⁰ A saída é o manto de trítio, uma camada de lítio ao redor da câmara que transforma nêutrons em combustível novo. A física é conhecida; a demonstração em escala industrial, não.

Dois calendários públicos

O roteiro público da Focused Energy é específico: primeiro laser em Biblis em 2028, primeira luz na câmara de diagnóstico em 2031, implosão em 2033, usina-piloto em 2035 e o primeiro megawatt-hora na rede em 2037.⁵ Na entrevista de fevereiro de 2026, Forner situa o nível 6 de maturidade tecnológica por volta de 2030 e o protótipo em 2035 ou 2036.⁷

No mesmo dia do anúncio do hub, a cobertura da emissora pública hessenschau registrou a meta federal de ter a primeira usina de fusão da Alemanha em operação na década de 2040.¹⁷ São dois calendários públicos com quase uma década de diferença, divulgados na mesma semana.

O dinheiro também tem duas escalas. O ministério federal aporta cerca de 125 milhões de euros na primeira rodada dos três hubs, com o programa se ampliando em seis fases até 2029;¹ o Plano de Ação Fusão, de outubro de 2025, prevê mais de 2 bilhões de euros no mesmo horizonte.¹⁰ Hessen entrou com 20 milhões para 2025 no memorando assinado em março daquele ano.¹⁹ A Focused Energy levantou 240 milhões de dólares na Série A e anunciou, junto com o hub, 200 milhões de euros de investimento privado em dois anos e cerca de 500 milhões até 2030.² ⁴ O conselho científico do clima de Hessen, por sua vez, trabalha com um custo de pelo menos 20 bilhões de euros por reator.¹⁵

A mudança de regra que quase ninguém comentou

O Plano de Ação Fusão, publicado em 1º de outubro de 2025, propôs manter as instalações de fusão sob a lei de proteção radiológica alemã, e não sob a lei atômica; o processo legislativo para consolidar esse enquadramento deve se encerrar em 2026.¹⁰

Isso importa mais do que parece. Um regime específico pode reduzir tempo e custo de licenciamento, sobretudo num terreno que já tem infraestrutura nuclear e uma operadora habituada a aprovações regulatórias.³ Segundo Forner, a Agência Internacional de Energia Atômica classificou Biblis como projeto de referência.⁷

Regime mais leve, porém, não quer dizer ausência de regime, e a objeção técnica mais concreta dos críticos mora exatamente aí: o inventário de trítio.

Quem discorda, e com que argumento

O conselho científico do clima do governo de Hessen publicou em 28 de novembro de 2024 um parecer baseado em estudo que encomendou ao Öko-Institut. A conclusão é direta: a fusão não deve contribuir de forma perceptível para as metas climáticas do estado, que pretende atingir a neutralidade climática em 2045, porque um primeiro reator dificilmente sairia antes de 2043 e custaria pelo menos 20 bilhões de euros.¹⁵ O parecer levanta ainda o inventário de trítio de um reator como reservatório de difícil controle para produção de bombas de hidrogênio.¹⁵ Sven Linow, que preside o conselho, resume: "Hoje, ainda é muito incerto se reatores de fusão nuclear poderão ser tecnicamente viáveis e economicamente competitivos."¹⁵

A BUND de Hessen, organização ambiental, foi mais curta. Werner Neumann, especialista em energia da entidade, chamou a fusão de "um sonho irrealista, caro e radioativo".¹⁶

Holdren, no Belfer Center de Harvard, escreveu em abril de 2026 que apostaria em não ver um reator comercial de fusão bem-sucedido antes de 2050.¹⁴ E a revista alemã t3n publicou em julho uma crítica ao desenho do programa federal, apontando de passagem que a ex-ministra federal de pesquisa Bettina Stark-Watzinger hoje trabalha para a Focused Energy.²²

Em Biblis, a leitura é outra. O município perdeu com a usina seu maior empregador e sua maior fonte de receita, e o prefeito Konstantin Großmann vê no hub a chance de a cidade se firmar como polo de tecnologia e pesquisa.¹⁷ Steffen Kanitz, da diretoria da RWE, apresenta o projeto como perspectiva de emprego para o pessoal que ainda está no sítio.¹⁸

Veredito

A parte imobiliária dessa história é sólida. Reaproveitar uma instalação nuclear em desmonte, com rede, água, estruturas reforçadas e infraestrutura existente, em vez de devolver o terreno ao estado de campo aberto, é engenharia sensata e economia melhor ainda. Se a Alemanha vai gastar 2 bilhões de euros tentando industrializar fusão, Biblis é um lugar razoável para gastar.

A parte energética é uma aposta, e convém chamá-la assim. O que foi demonstrado é que uma cápsula pode devolver quatro vezes a luz que recebeu, numa instalação que consome cerca de oitenta vezes a eletricidade que esse disparo poderia devolver à rede. O que falta é cadência de dez disparos por segundo, alvo de centavos, laser de outra geração e um ciclo de trítio que se sustente sozinho. Nenhum desses quatro problemas foi resolvido, e três deles são de manufatura e engenharia de sistemas, não de física. Isso é uma boa notícia sobre a natureza do problema e nenhuma notícia sobre o prazo.

A pressa tem explicação. Num mercado em que datacenter de IA compra eletricidade que não dorme, energia firme passou a ser disputada, e é esse apetite que faz um projeto de 2037 parecer curto prazo para um investidor.

A frase que a Focused Energy estampa no próprio site é "a ciência está resolvida; estamos construindo a usina".⁵ A primeira metade é defensável, com a contabilidade certa. A segunda metade é o trabalho todo.

Fontes

  1. Bär: „Drei neue Fusionshubs vernetzen Wirtschaft und Wissenschaft auf dem Weg zum Fusionskraftwerk." (comunicado 39/2026: três hubs, cerca de 125 milhões de euros na primeira rodada, seis fases até 2029) · BMFTR · https://www.bmftr.bund.de/SharedDocs/Pressemitteilungen/DE/2026/07/Fusion.html · 29/07/2026.
  2. Biblis wird zum Laserfusions-Hub · Focused Energy · https://www.focused-energy.co/news-release/biblis-wird-zum-laserfusions-hub · acessado 17/08/2026.
Mostrar mais 21 fontesOcultar fontes
  1. RWE increases investment in Focused Energy (60 milhões de euros adicionais; compromisso de adaptar o descomissionamento) · RWE · https://www.rwe.com/en/press/rwe-ag/2026-05-27-rwe-increases-investment-in-focused-energy/ · 27/05/2026.
  2. Focused Energy Sets a New Benchmark: $240 Million for the Largest Series A Financing in the Global Fusion Industry · Focused Energy · https://www.focused-energy.co/news-release/focused-energy-sets-a-new-benchmark-240-million-for-the-largest-series-a-financing-in-the-global-fusion-industry · 27/05/2026.
  3. Página institucional com o roteiro de marcos de 2028 a 2037 · Focused Energy · https://www.focused-energy.co/ · acessado 17/08/2026.
  4. Ditmire, T.; Roth, M. et al. Focused Energy, A New Approach Towards Inertial Fusion Energy · Journal of Fusion Energy 42(2), art. 27 · https://link.springer.com/article/10.1007/s10894-023-00363-x · 2023 · DOI: 10.1007/s10894-023-00363-x.
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  21. Der letzte Biblis-Turm ist gefallen: Abriss mit fadem Beigeschmack (queda da quarta e última torre em 16/01/2026) · hessenschau · https://www.hessenschau.de/panorama/der-letzte-biblis-turm-ist-gefallen---abriss-mit-fadem-beigeschmack-v1%2Ckuehlturm-biblis-beigeschmack-100.html · 16/01/2026.

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