A página do AliExpress mediu o navegador com WebAudio
Scripts carregados pela página criaram dois grafos de áudio a ganho zero e afetaram fones Bluetooth. Era processamento dentro da aba, sem microfone ou beacon ultrassônico, e a finalidade no servidor continua incerta.

Em 20 de agosto, um desenvolvedor que assina como m-c-tech documentou uma falha ao abrir o AliExpress no computador com Windows. O telefone dele já estava ligado a um fone Bluetooth multiponto. Quando a página carregava no Firefox ou no Chrome, o áudio do telefone parava. Fechar a aba fazia a reprodução voltar. Mutar a página, o navegador ou todo o áudio do Windows não resolvia.¹
A instrumentação do navegador encontrou dois AudioContext ativos, criados por scripts ofuscados servidos pelo domínio assets.aliexpress-media.com, em caminhos AWSC. Os grafos processavam um oscilador e entregavam o resultado a um nó de ganho configurado em zero. O computador calculava áudio, mas nenhum som chegava aos fones e os scripts não abriram o microfone. Os contextos mantinham a rota de áudio do PC ativa durante a interferência observada no multiponto; bloqueá-los eliminou o problema no teste.¹
O código também reunia muitos outros sinais usados em impressões de navegador. Essa combinação sustenta a descrição técnica de fingerprinting. Ela não revela por quanto tempo os resultados são guardados, como entram numa decisão antifraude ou se permitem reconhecer a mesma pessoa em outros sites. O autor da investigação delimitou essas lacunas.¹
O ganho zero silencia a saída, não o cálculo
WebAudio é a interface que permite a uma página sintetizar, conectar e analisar som dentro do navegador. O grafo observado começava num OscillatorNode com onda dente de serra, passava por um AnalyserNode e por um ScriptProcessorNode, chegava a um GainNode com valor zero e terminava em AudioContext.destination.¹
O ganho zero ficava perto do fim. As etapas anteriores continuavam produzindo amostras numéricas. Pequenas diferenças na implementação das funções matemáticas, no mecanismo de áudio ou na plataforma podem alterar o resultado. Um script pode condensar essas amostras num valor e adicioná-lo a outros sinais do navegador.² ³
Essa ordem também ajuda a entender o bug percebido pelo pesquisador. O silenciamento do sistema agia sobre uma saída que já estava silenciosa. O AudioContext permanecia em execução e ligado ao destino. Quando ele bloqueou os dois arquivos de script com uma regra local no uBlock Origin, os contextos desapareceram e o fone multiponto voltou a se comportar normalmente no equipamento testado.¹ É uma reprodução individual, sem medição de prevalência entre sistemas operacionais, navegadores ou modelos de fone.
O áudio compunha uma impressão muito maior
Os mesmos scripts consultavam canvas e WebGL, tamanho da tela, densidade de pixels, codecs disponíveis e características de hardware. A investigação também encontrou sinais de interação, como foco, rolagem, mouse e toque, além de verificações associadas a automação.¹ O valor derivado do WebAudio entrava nessa coleção ampla.
Tom Ritter, engenheiro do Firefox, analisou a distribuição desse valor em dados próprios do navegador. Depois de uma mudança incorporada ao Firefox 118, a implementação passou a usar uma biblioteca matemática padronizada para reduzir diferenças entre máquinas. O resultado ficou concentrado: 99,24% dos usuários da amostra caíram em três valores. Outros 0,76% falharam ou retornaram zero; uma cauda de 48 usuários produziu valores diferentes.² ³
Essa distribuição torna o vetor quase inútil sozinho no Firefox protegido. Ele ainda pode acrescentar um bit de informação a uma impressão composta, ou ajudar a detectar ambientes incomuns. Não equivale a um identificador exclusivo. O conjunto maior pode continuar separando navegadores mesmo quando um componente perde precisão.
A finalidade do servidor permanece fora do que o código cliente consegue demonstrar. Os dados podem alimentar segurança, antifraude, controle de abuso ou rastreamento comercial. A presença do mecanismo e a transmissão dos sinais são observáveis; retenção, ligação de identidade e uso posterior exigiriam acesso a registros ou documentação que a investigação não teve.¹
Beacon ultrassônico usa microfone e ar
O incidente ganhou descrições como “som inaudível” porque o grafo não produzia saída perceptível. Isso não o transforma em rastreamento ultrassônico entre dispositivos. No AliExpress, o sinal ficou dentro do computador e o ganho zero impediu a reprodução. Não havia código captando o ambiente pelo microfone.¹
Um beacon ultrassônico segue uma arquitetura física. Uma TV ou um alto-falante controlado por uma página emite um código em frequência acima da audição humana. Um segundo aparelho, normalmente um celular com um aplicativo, usa o microfone para reconhecer o código e informar que os dispositivos estiveram próximos. Pesquisadores de privacidade documentaram esse desenho e seus riscos de ligação entre aparelhos em 2017.⁵
A FTC já havia alertado, em 2016, doze desenvolvedores cujos apps incluíam o SDK Silverpush. O código podia ouvir pelo microfone beacons incorporados ao áudio de anúncios de TV, inclusive com o aplicativo em segundo plano. A agência registrou que a empresa dizia não operar o recurso nos Estados Unidos naquele momento.⁶ Esse histórico descreve uma tecnologia real, com permissões e canal acústico ausentes no caso recente.
As defesas alteram cada componente
O Firefox reduziu a variabilidade do WebAudio ao padronizar os cálculos. O Brave adota outra estratégia: randomiza valores retornados por APIs de alta entropia, incluindo WebAudio, por sessão e por site de primeiro nível. A intenção é fazer a mesma máquina parecer diferente em contextos que um rastreador tentaria ligar.⁴ As abordagens podem degradar sites que dependem de medições exatas, por isso os navegadores aplicam proteções com escopos próprios.
Bloquear o acesso ao microfone impede que um app ou site escute um beacon acústico, mas não afeta o grafo a ganho zero observado no AliExpress. No teste original, filtros estreitos do uBlock Origin bloquearam apenas as famílias collina.js e fireyejs.js. As abas existentes precisaram ser fechadas porque interromper o arquivo não encerra um AudioContext já criado; o pesquisador também alertou que os filtros podem provocar CAPTCHAs extras ou problemas de login e pagamento.¹ Navegadores atualizados com defesas nativas reduzem o valor do sinal sem prometer anonimato contra a impressão composta.
A mesma limitação orienta uma estratégia de privacidade mínima viável: permissões devem acompanhar o canal que realmente existe. Para beacons ultrassônicos, o canal passa pelo microfone. Para este caso, a medição aconteceu no WebAudio da própria aba.
Fontes
- AliExpress webpage keeping multipoint Bluetooth headphones active with WebAudio fingerprinting · m-c-tech / laserphile · https://blog.laserphile.com/2026/08/aliexpress-webpage-keeping-multipoint.html · 20 ago. 2026
- webaudio fingerprinting on alibaba · Tom Ritter · https://ritter.vg/blog-webaudio_alibaba.html · 20 ago. 2026
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- Use FDLIBM in WebAudio to reduce fingerprinting · Mozilla Bugzilla · https://bugzilla.mozilla.org/show_bug.cgi?id=1358149 · mudança incorporada ao Firefox 118
- Fingerprinting Protections · Brave Browser Wiki · https://github.com/brave/brave-browser/wiki/Fingerprinting-Protections/a400aea46678d76e25f5f325e224f65ff3e958a6 · documentação oficial
- On the Privacy and Security of the Ultrasound Ecosystem · Proceedings on Privacy Enhancing Technologies · https://petsymposium.org/popets/2017/popets-2017-0018.pdf · 2017
- FTC Issues Warning Letters to App Developers Using ‘Silverpush’ Code · Federal Trade Commission · https://www.ftc.gov/news-events/news/press-releases/2016/03/ftc-issues-warning-letters-app-developers-using-silverpush-code · 17 mar. 2016
— Redação